ESCRITO DA SEMANA | Muro das goiabas
O senhor ranzinza da casa da
esquina com a igreja, acorda toda manhã no mesmo horário a fim de varrer a
calçada e cuidar de seu jardim rosa de roseiras, iluminado de girassóis,
contrastante de papoulas, verde de grama e por fim cheiroso da mais bela
goiabeira do bairro. Seu despertador é sútil, infalível e a prova de erros...
mas não segue nem nunca seguiu os ponteiros do relógio tão cheio de firulas e
engrenagens, mas sim o humor do clima e de suas rosas como deveria.
Então naquele verão mais instável
que crise existencial de adolescente na TPM, ocorreu o furto mais comentado na
escola do bairro e nas janelas das antes
namoradeiras, hoje velhas fofoqueiras, num raio de 3 quarteirões contarem um
ponto e aumentarem um ponto por uma semana.
O crime se assucedeu naquela
manhã atípica de Março, em que os pássaros adiaram o canto por mais cinco
minutinhos de sono, a grama decidiu prolongar seu banho no orvalho da noite, os
girassóis (um tanto apagados) à espera do sol por preguiça mantiveram suas
cabeças baixas, as rosas poéticas e chorosas, as papoulas caídas e meio
murchas, mas as goiabas... ah as goiabas, estavam cheirando mais do que o
normal, implorando por um resgate daquela torre que chamam de árvore,
simplesmente no ponto.
Os três garotos desciam a rua
chutando suas mochilas e conversando abobrinhas, até que passaram pela lateral
da casa do tão misterioso senhor, ou Véio como preferiam chamar, e estranharam
o silêncio...
“Ué! Cadê o Véio?...”
“O Véio eu num sei não, mas as goiaba tão é tudo aqui...” Falou Zézin
de cima do muro já comendo uma goiaba.
E nisso Carlinhos subiu o muro
também e pedindo para o irmão Pedin ficar de butuca na calçada, caso o Véio
aparecesse para que eles tivessem tempo de correr e o furto seria repartido em
três partes iguais.
Quando umas dez ou onze das mais
deliciosas goiabas foram roubadas o delito fora interrompido pelas duas
situações que mais preocupava os três meninos: O sinal da escola e a cara
furiosa do Véio enfim acordado e já praguejando.
“ESSES MOLEQUES...”
Os três garotos correram como se
suas vidas dependesse disso e quando pisaram na sala de aula já esbaforidos,
vermelhos, eufóricos e com os corações saindo pela boca estavam nada menos que
felizes com as bolsas cheias e pesadas das suculentas goiabas do Muro das
Goiabas.
Mariana Azevedo

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