Os bilhetes


    Todo dia de manhã você pregava pequenos bilhetes na porta do banheiro. Nunca fora de jogar conversa fora, bastava olhar para você que o sorriso era instantâneo.
    Seus bilhetes iam de assuntos sérios como a privada entupida, ou frases que nunca fizeram muito sentido como: "Acho que hoje neva em Nova Orleãs". Sempre breves, simples e pregados por uma fita adesiva na porta do banheiro.
    Um certo dia afixei um quadro branco na porta com seu devido pincel. Na manhã seguinte, foste lá e colaste o bom e velho bilhete avisando que o chuveiro elétrico havia queimado. Eu que já tinha uma caixinha com aqueles bilhetes de frases bonitas ou pequenas piadas sem sentido, decidi deixa-la fazendo de no seu jeitinho.
    Com o tempo também descobri que a graça dos seus bilhetes não era o recado, mas o verso, sempre uma surpresa. As vezes poemas, outras desenhos, teve até a vez que veio uma fotografia, e a outra que durou uma semana, como uma breve novela policial.
    Até que fostes a se mudar para o apartamento que ninguém quer ficar. Deixei de levar os bilhetes para os encontros com a família e passei a lê-los para você nas poucas vezes que te visitei. Seu nervosismo foi semi-igual quando li sua breve novela policial, e mesmo sabendo do fim ficaste tensa. Rimos dos desenhos e de algumas piadas como se fosse "A Piada".
    Agora cá estou eu lendo um texto sobre bilhetes, para uma multidão de gente que te ama, invés de falar o bom, velho e verdadeiro clichê:
    "Ela viveu cada momento de sua vida com um belo sorriso e nunca desistiu, nem mesmo nos dias mais sombrios..."
    Mas nunca fomos de clichês mesmo, até porque sempre estará viva em nossos corações e de todos aqueles que se sintam tocados pelos seus bilhetes por mais engraçados ou bobos que possam parecer, eles são e sempre serão mais do que os olhos podem ver.

Mariana Azevedo

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